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Hanseníase

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Hanseníase é uma doença crônica, granulomatosa, que afeta a pele, o sistema nervoso periférico e, ocasionalmente, outros órgãos e sistemas. Com a denominação de lepra, é conhecida desde a antiguidade há cerca de 2600 anos, sempre marcada pelo estigma do preconceito e considerada uma maldição 9. É causada pelo bacilo intracelular obrigatório Mycobacterium leprae, de alta infecciosidade (capaz de infectar grande número de pessoas) e baixa patogenicidade (poucas pessoas adoecem). É a única espécie de micobactéria que infecta nervos periféricos, especificamente células de Schwann 2 e foi observada pela primeira vez pelo médico norueguês Gerhard Hansen, em 1873 3.

O homem é considerado seu único reservatório, embora já tenham sido encontrados tatús (Mammalia, Cingulata, Dasypodidae) infectados na natureza e associados a casos humanos de contato com esses animais 4. A transmissão se dá por contato direto com secreções respiratórias (perdigotos, muco nasal, lesões ulceradas) por aspiração ou por penetração através de soluções de continuidade da pele. O fator de risco estabelecido para adquirir a doença é o contato íntimo e prolongado com indivíduos doentes, como os que habitam a mesma residência 9.

O período de incubação varia de 3 a 10 anos, durante os quais o M. leprae invade as células Schwann nos nervos periféricos, danificando-os 8. O quadro clínico depende da resposta imune individual, 95% da população mundial tem imunidade natural contra a doença, que é de progressão lenta. Como a bactéria é sensível ao calor, os sintomas ocorrem na pele e nos nervos periféricos, nas regiões mais frias do corpo como: mãos, pés, face e lóbulos da orelha 8.

A pele, o sistema nervoso periférico e as membranas mucosas são afetados durante a doença. Os principais sintomas são os dermatológicos: manchas esbranquiçadas ou avermelhadas na pele; pele seca, grossa e com tubérculos (lesões sólidas elevadas – caroços externos) ou nódulos (lesões pouco visíveis, caroços internos). Podem ainda apresentar dor forte, diminuição e/ou perda de sensibilidade nas áreas afetadas da pele, fraqueza muscular ou paralisia, problemas de visão que podem levar à cegueira, espessamento dos nervos periféricos especialmente do cotovelo e joelho, nariz entupido, sangramento nasal, úlceras nas solas dos pés. Devido à perda de sensibilidade o paciente pode sofrer queimaduras ou fraturas 2.

Há quatro principais formas clínicas da doença: hanseníase indeterminada, manifestações cutâneas de máculas hipopigmentadas a discretamente eritematosas; hanseníase tuberculóide lesões cutâneas, com bordas pronunciadas, únicas ou em pequeno número; hanseníase virchoviana que apresenta um quadro clínico variável com máculas hipocrômicas, hipoestésicas em grande número; hanseníase dimorfa (borderline) é caracterizada por placas eritematosas com limites pouco definidos 10.

Para fins de tratamento a Organização Mundial de Saúde (OMS) recomenda que a doença seja classificada em apenas dois tipos: paucibacilar (PB) – até 5 lesões, e multibacilar (MB) acima de 5 lesões. Os paucilbacilares são indivíduos com melhor resposta imunológica, eliminam poucos bacilos e, portanto os que menos oferecem risco de contaminação para outras pessoas. O tratamento deve ser feito com poliquimioterapia (PQT) por um período de seis meses a dois anos a depender do caso clínico. Embora eficaz, não reverte nem recupera as deformidades físicas já instaladas 3. Uma vez iniciado o tratamento, os doentes deixam de ser transmissores 2.

A hanseníase foi introduzida no Brasil provavelmente pelos portugueses na época da colonização, principalmente considerando que vinham da Ilha da Madeira, arquipélago dos Açôres, possessões marroquinas e Índias Portuguesas, reduto da doença no continente europeu do século XVI 6. Os primeiro relatos datam de 1600 no Rio de Janeiro, onde muitos anos mais tarde foi criado o primeiro lazareto para abrigar os doentes de Lazaro, lazarentoso ou leprosos, como eram conhecidos. Seguiram-se focos da doença na Bahia e no Pará. Outros focos foram surgindo em várias regiões do país acompanhando a colonização 6.

A hanseníase continua sendo um importante problema de saúde pública no Brasil. Em 2010 estava em segundo lugar no mundo (depois da Índia) em maior número de casos, com 37.610 casos novos/ano, dos quais 2.436 eram incapacitantes 11. Em Salvador, Bahia, continua com altos índices de endemicidade, entre 2001 e 2009 foram registrados mais de 3000 pacientes, concentrados na faixa acima de 15 anos, com predominancia da forma tuberculoide. A maioria dos casos em bairros com índice socioeconomico baixo, como o subúrbio ferroviário, Itapuã, São Caetano/Valeria, Cabula/Beirú e Cajazeiras  7.

A notificação compulsória da doença foi instituída pelo Regulamento Sanitário de autoria de Oswaldo Cruz, através do decreto no. 5.156 de 08/03/1904, sancionado por Rodrigues Alves. O isolamento dos doentes inicialmente recomendado apenas nos domicílios, depois de 1914, com a aprovação do novo Regulamento da Diretoria Geral de Saúde Publica (DGSP) passou a ser feito também em hospitais/colônias 5.

A segregação passou a fazer parte da história do Brasil e de outros países como forma de conter a contaminação doentes-sadios. Até a década de 50 os pacientes eram forçados a deixar o convívio de suas famílias, sendo segregados em colônias. Os filhos de mães hansênicas, nascidos ou não nas colônias, eram arrancados de suas mães e entregues a asilos. A ignorância e preconceito com relação à doença são um importante fator negativo com relação ao controle da hanseníase. Seja porque o indivíduo doente não busca logo diagnóstico e tratamento, seja porque por vergonha esconde o diagnóstico de sua família e de pessoas próximas, impedindo o controle e possível diagnóstico de contactantes.

Além dos agravantes inerentes a qualquer doença de origem sócio-econômica, ressalta-se a repercussão psicológica ocasionada pelas sequelas físicas da doença, contribuindo para a diminuição da auto-estima e para a auto-segregação do hanseniano 3. No Brasil, na tentativa de diminuir o preconceito, que perdura até os dias de hoje, o termo lepra e os adjetivos dela derivados foram proibidos de fazer parte de qualquer documento oficial, através do decreto presidencial de número 9.010 de 29 de maio de1995. Em 1986 foi aprovada a lei 11.520 que indeniza financeiramente as pessoas atingidas pela hanseníase e que foram submetidas a isolamento e internação compulsórios em hospitais-colônia até 31/12/1986.

O controle adequado da hanseníase deve envolver diversos aspectos: busca ativa de casos, diagnóstico precoce, prevenção e tratamento de incapacidades físicas. A educação em saúde deve incluir os doentes, familiares e a população em geral, com enfoque nas escolas, visando a diminuição/eliminação do preconceito de uma doença já tão estigmatizada 1.

 

Referências utilizadas:

  1. BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Políticas de Saúde. Departamento de Atenção Básica. Guia para o Controle da hanseníase. Brasília: Ministério da Saúde, 2002.
  2. BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de Vigilância epidemiológica. Guia de Procedimentos Técnicos: baciloscopia em Hanseníase, Brasília, Ed. Ministério da Saúde, 2010.
  3. EIDT, LETÍCIA MARIA. Breve história da hanseníase: sua expansão do mundo para as Américas, o Brasil e o Rio Grande do Sul e sua trajetória na saúde pública brasileira, Saúde e Sociedade v.13, n.2, p.76-88, maio-ago, 2004
  4. FROTA CC, LIMA LNC, ROCHA AS, SUFFYS PN, ROLIM BN, RODRIGUES LC, BARRETO ML, KENDALL C, SANSIGOLO LRK  Mycobacterium leprae in six-banded (Euphractus sexcinctus) and nine-banded armadillos (Dasypus novemcinctus) in Northeast Brazil. Mem Inst Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro, Vol. 107(Suppl. I): 209-213, 2012
  5. MACIEL, LAURINDA ROSA – Em proveito dos sãos, perde o lázaro a liberdade: uma história das políticas públicas de combate à lepra no Brasil (1941-1962), tese de doutorado, UFF, 2007
  6. MAURANO, FLÁVIO. História da lepra no Brasil e sua distribuição geográfica, in Tratado de Leprologia, Serviço Nacional de Lepra, BRASIL, 2ª ED., VOL. 1, 1950.
  7. MOREIRA SC, BATOS CJC, Tawil L. Epidemiological situation of leprosy in Salvador from 2001 to 2009. An Bras Dermatol. 89(1):107-17, 2014;
  8. PINHEIRO RO, SALLES JS, SARNO EN, SAMPAIO EP Mycobacterium leprae–host-cell interactions and genetic determinants in leprosy: an overview. Future Microbiol. Feb 2011; 6(2): 217–230.2011.
  9. POMMERVILLE, Jeffrey C. Alcamo’s Fundamental’s of Microbiology, 9th ed. 2011, 805p
  10. SCHECHTER, M.; MARANGONI, D.V. Doenças Infecciosas: conduta diagnóstica e terapêutica, Ed. Guanabara Koogan, 1994.
  11. WHO  World Health Organization. Global leprosy situation, 2010. Weekly epidemiological record. No. 35, 2010, 85, 337–348.
Como citar esta página: – Guerreiro H., Brazil TK. Hanseníase. Museu Interativo da Saúde na Bahia. Disponivel em: http://www.misba.org.br/doenca/doencas-da-pele/lepra/. Acesso em: 18/12/2017 09:54:21.