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Peste bubônica

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A peste, ou peste bubônica, é uma doença infectocontagiosa aguda causada pela bactéria Yersinia pestis da familia das Enterobacteriaceae. Ocorre em ciclos enzooticos (silvestres) naturais entre roedores silvestres e suas pulgas e é frequentemente fatal. O homem é infectado acidentalmente quando em atividades de caça, agricultura, comércio ou lazer, penetra no ecossistema dos roedores reservatórios da doença. Ocasionalmente, no caso da peste pneumônica, pode ser transmitida diretamente determinando um quadro de altíssima letalidade e configurando-se em uma emergência epidemiológica 2.

A Y. pestis é um bacilo Gram negativo, imóvel, não formador de esporos, que não sobrevive bem saprofiticamente e é destruído rapidamente pela luz solar ou por temperaturas acima de 40ºC 2. O nome Yersinia foi dado em homenagem ao médico bacteriologista suíço Alexandre Yersin (1863-1943) que identificou e isolou a bactéria em 1894, e ainda estabeleceu uma relação entre a doença e os roedores. Somente em 1989, quase 100 anos depois, é que o francês Paul-Louis Simond descobriu o papel das pulgas no processo de transmissão da doença 5.

Os hospedeiros naturais dessa bactéria são os roedores silvestres, mas o ser humano se torna um hospedeiro ocasional ao ser picado pela pulga contaminada pela ingestão de sangue do roedor ou de outro ser humano contaminado. Das quase    2 mil espécies de roedores existentes no mundo, cerca de 230 espécies albergam naturalmente a Y.pestis 2. Os roedores Rattus norvegicus (rato, ratazana, rato de esgoto) e Rattus rattus (rato, rato-preto, rato de telhado) representam o principal foco no ciclo urbano. As pulgas são insetos da ordem Siphonaptera, a espécie que parasita o rato é a Xenopsylla cheopis, diferente da comum do ser humano, a Pulex irritans 2.

O curso da doença se dá pela penetração da bactéria na pele do hospedeiro (mamíferos diversos) pela picada da pulga infectada. No intestino da pulga a bactéria se multiplica e forma uma massa que obstrui o esôfago impedindo que a pulga se alimente, a menos que regurgite o material, o que a levaria à morte por inanição. No mamífero infectado, após penetração das bactérias na corrente sanguínea, a disseminação é rápida. A Yersinia pestis tem afinidade por tecidos linfoides, localizando-se nos nódulos linfáticos onde promve um inchaço doloroso especialmente nas axilas e virilha, os bubões (nome que originou a palavra bubônica). Na evolução do quadro clínico a bactéria avança para a corrente sanguínea originando a fase septicêmica. Progride para os pulmões onde se multiplica (fase pneumônica) e de onde é capaz de se espalhar para outros hospedeiros susceptíveis por aerossóis. Pessoas infectadas por via respiratória morrem num espaço de dias, provavelmente pelo fato da bactéria já estar adaptada ao hospedeiro humano. A morte ocorre por choque séptico 6.

A peste é uma das doenças mais antigas e temidas do mundo, tem sido pandêmica e com alta taxa de mortalidade. Na forma bubônica, quando não tratada, pode alcançar 50% de letalidade e nas formas pneumônica e septicêmica podem alcançar letalidade próxima de 100% 1. Seu primeiro relato data de 541 a.C., na Idade Média (praga de Justiniano), quando morreram mais de 10.000 pessoas por dia em Constantinopla, no Império Bizantino (atual Istambul). Matou mais da metade da população européia por  volta de 600 d.C.5. No século XIV, voltou a matar um terço da população da Europa (20 a 30 milhões de pessoas), quando foi denominada de morte negra, pois as pessoas apresentavam lesões negras pelo corpo. No século XIX e início do século XX (1894 e 1912) houve uma outra pandemia que teve início na India, se estendeu à China, matando 10 milhões de pessoas 4.

Continua sendo potencialmente perigosa em diversas partes do mundo. Focos naturais da doença persistem na África, Ásia, sudeste da Europa, América do Norte e América do Sul. No Brasil, a peste entrou pelo porto de Santos em 1899 e propagou-se a outras cidades litorâneas e portuárias, como Salvador (1904). A partir de 1906 foi banida dos centros urbanos, persistindo como enzootia em  pequenos focos endêmicos residuais na zona rural 4.

Entre 2000 e 2011 foram notificados 334 casos de peste no Brasil, dos quais dois casos positivos confirmados pelo critério clínico-epidemiológico na Bahia (2000) e um caso confirmado pelo critério laboratorial no Ceará (2005), o que significa que os focos brasileiros permanecem ativos, a despeito da baixa incidência ou ausência de casos humanos em alguns deles 3.

De acordo com a Portaria SVS/MS Nº 104, de 25 de janeiro de 2011, Anexo I, todo caso de peste é de notificação obrigatória às autoridades locais de saúde. Deve-se realizar a investigação epidemiológica em até 48 horas após a notificação, avaliando a necessidade de adoção de medidas de controle pertinentes. A manipulação da bactéria e carcaças contaminadas só pode ser realizada em laboratório de Biossegurança Classe III, devidamente equipado e por profissionais bem treinados 3.

Referências utilizadas:

  1. BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Guia de vigilância epidemiológica/Ministério da Saúde, Secretaria de Vigilância em Saúde. Série A. Normas e Manuais Técnicos, 6a ed., Brasília: Ministério da Saúde, 2005. 816 p.
  2. BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de Vigilância Epidemiológica. Manual de Vigilância e Controle da Peste. Série A. Normas e Manuais Técnicos. Brasília: Ministério da Saúde, 2008.
  3. BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Saúde Brasil. Capítulo 3. Análise da situação das doenças transmissíveis no Brasil no período de 2000 a 2010, 2011.
  4. MARCONDES JM. À sombra do plátano: crônicas de história da medicina. Editora UNIFESP. 2009.
  5. ROONEY AA História da Medicina – Das primeiras curas aos milagres da medicina moderna. 2013. São Paulo. M.Booksdo Brasil Editora Ltda.
  6. SALYERS AA, WHITT DD. Bacterial Pathogenesis, 2a ed. ASM PRESS, 2002, 539p.
Como citar esta página: – Guerreiro, H., Brazil, T.K.. Peste bubônica. Museu Interativo da Saúde na Bahia. Disponivel em: http://www.misba.org.br/doenca/doencas-da-pele/peste-bubonica/. Acesso em: 19/10/2017 06:14:26.