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Cólera

O Brasil foi um dos países atingidos pela 3ª pandemia de cólera que teve início na Índia em 1846 e percorreu vários continentes matando milhares de pessoas por onde passou, até 1863. Foi a primeira epidemia no país e matou cerca de 200.000 pessoas entre 1855 e 1856 8.

A primeira notícia da doença em solo brasileiro veio da província do Pará, em maio de 1855 e a segunda localidade no avanço epidêmico da cólera no país é reportada para Salvador, em julho do mesmo ano 6. Apesar do bacilo do cólera já ter sido isolado pelo italiano Filippo Paccini em 1854 7, ainda não haviam bases científicas para supor que a água fosse um possível transmissor das doenças microbianas. Assim, a maioria dos médicos era “anticontagionistas” e adeptos da teoria miasmática, poucos eram os contrários à essa teoria, razão pela qual se descartou a transmissão como oriunda de casos dos navios que aqui aportaram.

Em 21 de julho de 1855 os primeiros casos de cólera foram confirmados em Salvador pelo médico John Ligertwood Paterson 1, que indicou a iminência da epidemia. Os casos ocorreram na região do porto, exatamente no dia seguinte (20 de julho) em que aportou o vapor “Imperatriz” vindo de Belém, província do Pará, quatro meses depois que se iniciaram os casos de cólera no Pará 8. Mesmo assim, os relatos do médico José Pereira Rego (1873) indicam que já havia sido comunicado pela tripulação do navio de que havia um doente a bordo, mas o fato foi desmentido pela polícia 6.

Embora a epidemia tenha sido admitida e divulgada oficialmente em Salvador em 21 de julho, existem registros da doença desde março. Há relatos de suspeitas de doentes de cólera a bordo do navio cargueiro inglês “Mercury” vindo de Hamburgo (Alemanha), cidade onde a cólera já estava estabelecida. O navio, com carga de bacalhau, aportou em 9 de março e o seu comandante, após alguns dias de leve mal estar, adoeceu repentinamente e faleceu em poucas horas com sintomas suspeitas de cólera morbo, como se denominava a doença na época. A tripulação do navio, constituída de 13 homens, também adoeceu. Houve suspeitas de que o bacalhau, após 36 dias de viagem tivesse se deteriorado e fosse o foco da infecção 6.

Devido à falta de evidências concretas da entrada da doença pelos vapores “Mercury” e “Imperatriz” a “Comissão de Hygiene Pública” negou que a doença tivesse sido trazida pelos navios e culparam a falta de higiene de toda a capital da província. Esse foi um dos motivos para não adotar o procedimento da quarentena. Mas, outro motivo, e talvez o principal, é que a obrigatoriedade da quarentena afastaria os navios sem suspeita da doença, o que prejudicaria o comércio da cidade 2. Imundícies e águas pútridas estagnadas espalhadas por toda a cidade, reconhecidamente nocivas, deveriam ser eliminadas. Foram medidas que não impediram o avanço da epidemia. A partir dos casos na Freguezia de Santo Antonio junto ao convento das Carmelitas e na freguezia de Santana na rua dos Castanhedas, a doença se espalhou para a povoação do Rio Vermelho, onde foi relatada a morte de dois pescadores de baleia, passando posteriormente a ocorrer oito a dez casos fatais por dia 5,6. As duas primeiras localidades estavam proximas à esterqueiras e a do Rio Vermelho, próxima à foz do rio Camarigibe que recebia o esgoto da cidade pelo rio das Tripas 6.

O cólera permaneceu em Salvador até meados de 1856. Da Bahia a epidemia irradiou-se para Alagoas e para quase todo o Nordeste, exceto o Piaui e Ceará. Alastrou-se também para o Espírito Santo e Rio de Janeiro e seguiu para o sul do país. Foram criados hospitais e enfermarias provisórias nas regiões mais necessitadas e atingidas e o governo enviou ambulâncias com medicamentos, mantimentos, médicos e estudantes de medicina, além de distribuir dinheiro às famílias pobres e mais necessitadas, vítimas da epidemia. A mortalidade total em Salvador foi de 9.849 mortes, e 35.981 na Bahia 6.

A epidemia de cólera trouxe uma importante mudança de costumes relativa ao sepultamento, originalmente realizado nas igrejas para as pessoas de projeção social, enquanto os escravos, prisioneiros, suicidas, indigentes e leprosos eram sepultados em cemitérios leigos. A partir da epidemia todos passaram a ser sepultados em cemitérios, independente de sua condição social 3.

Embora houvesse polemica com relação ao tratamento para o doente de cólera, houve recomendações de que os doentes se abstivessem da carne seca e do bacalhau e passassem a consumir carne fresca, o que gerou uma grande rejeição por parte da população, uma vez que os alimentos considerados insalubres constituíam a principal comida dos marinheiros e dos mais pobres 6.

Em Salvador, a cólera tornou‐se endêmica, ou seja os acsos a partir de 1858, manifestando‐se sobretudo em marinheiros de 1869 até 1879, alastrou-se pelo Recôncavo, até o Agreste baiano 2.

Por muitos anos a cólera deixou de acontecer como epidemia no Brasil. Em 1991 os primeiros casos da sétima pandemia chegaram ao país e a doença permaneceu com altas incidências, principalmente na região Nordeste, até 1994 4.

Na Bahia os últimos registros de casos confirmados ocorreram em 2000 9.

Referências utilizadas:

  1. BRITTO AN. 143 anos da Gazeta Médica da Bahia. Gazeta Médica da Bahia 2010, 79:1(Jan-Abr): 60-73.
  2. CHAVES CM. Fluxo e Refluxo do Cólera na Bahia e no Prata, IV Enc ANPHLAC, 2000
  3. DAVID OR. O inimigo invisível: a epidemia do cólera na Bahia em 1855-1856. Dissertação (Mestrado em História). Universidade Federal da Bahia/ UFBA, 1993. 
  4. GEROLOMO M, PENNA MLF. Os primeiros cinco anos da sétima pandemia de cólera no Brasil. Informe Epidemiológico do SUS-IESUS, 8 (3):49-58, 1999.
  5. LEMOS, MA. O Terror se Apoderou de Todos: Um Estudo sobre o Cólera, Dissertação de Mestrado, Universidade Estadual do Ceará_UECE, Fortaleza, Ceará, 2012
  6. REGO JP. Memoria Historica das Epidemias da Febre Amarela e Cholera-Morbo que têm Reinado no Brasil. Publicado no Diario Official do Império do Brasil em março de 1873. Typographia Nacional, Rio de Janeiro,1873
  7. ROONEY, A. A História da medicina- das primeiras curas aos milagres da medicina moderna. 2013. São Paulo. M.Books do Brasil Editora Ltda.
  8. SANTOS LAC. Um século de cólera: Itinerário do medo. PHYSIS – Revista de Saúde Coletiva. 4 (1): 79-110, 1994.
  9. Secretaria da Saúde do Estado da Bahia. Diretoria de Vigilância Epidemiológica, Nota Técnica 01/2011- Cólera. 2011.
Como citar esta página: – Guerreiro H., Brazil TK.. Cólera. Museu Interativo da Saúde na Bahia. Disponivel em: http://www.misba.org.br/epidemia/epidemias-em-salvador-bahia/epidemia-de-colera/. Acesso em: 19/10/2017 06:16:22.