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Gripe Espanhola

A gripe espanhola ou influenza maligna foi a maior e mais devastadora pandemia que varreu os 4 continentes – Europa, Ásia, África e Américas – nas primeiras décadas do século XX. Acredita-se que infectou mais de seiscentos milhões e vitimou mais de trinta milhões de pessoas em todo o mundo3 incluindo o presidente do Brasil, Francisco de Paula Rodrigues Alves. Atingiu Salvador na segunda quinzena de setembro de 1918 e durou cerca de 3 meses2 Em pouco mais desses 3 meses a gripe atingiu 40% da população (cerca de 300.000 habitantes1) e foi responsável por 386 mortos5. Apesar do conhecimento já estabelecido da presença de vírus em seres humanos desde 1901 (vírus da febre amarela)6, esses organismos só puderam ser examinados quando o microscópio eletrônico foi inventado, em 19316. Portanto, em 1918 a origem da doença ainda era desconhecida, embora tivesse sido atribuida a um patógeno batizado de Haemophilus influenza (bacilo de Pfeiffer), e foi então  denominada influenza espanhola ou brasileira, febre dengue ou papatasi 2.

A entrada da doença na Bahia se deu através da chegada do paquete (navio a vapor de luxo, de grande velocidade) inglês Demerara, que aportou na cidade de Salvador no dia 11 de setembro de 1918, trazendo a bordo passageiros doentes. Dias depois, a imprensa registrou dois óbitos entre os passageiros desembarcados e a doença começou a se espalhar sem que a Diretoria Geral da Saúde Pública da Bahia tomasse conhecimento do caso2. Até o dia 24 de setembro (menos de 15 dias!), setecentas pessoas tinham contraído a gripe, aglomerando-se em quartéis, hospitais, casas particulares e conglomerados operários. A doença se espalhou rapidamente, em um mês atingiu níveis epidêmicos, mas foi de difícil diagnóstico devido à familiaridade dos soteropolitanos com a gripe sazonal e benigna 2.

Criou-se então polêmica entre os clínicos da cidade, os que negavam a existência de uma epidemia argumentavam tratar-se apenas de “uma afecção catarral ligada às condições locais e causas meteorológicas gerais que atuaram ao mesmo tempo sobre um grande número de indivíduos”. O médico Raimundo Nina Rodrigues (1862-1906) fez um estudo dos quadros clínicos nas enfermarias do Hospital Santa Isabel estabelecendo sua vinculação com os da epidemia em curso. A rápida disseminação da doença pela cidade de Salvador, tomando ruas inteiras e invadindo fábricas e oficinas, levou Nina Rodrigues a concluir que se tratava de doença de grande contagiosidade e rápida disseminação, e que sua incidência não estava subordinada à influência dos climas nem das estações 3.

Os médicos inspetores sanitários Frederico Koch, Dionysio Pereira e Aristides Novis ficaram responsáveis por apresentar um parecer da doença, até então desconhecida, e definiram os sintomas da doença como “elevação térmica, numa escala de 38 a quarenta graus, fenômenos inflamatórios para o lado das vias respiratórias superiores, mialgia, cefaléia e lassidão”. Os médicos sugeriram medidas de higiene públicas e individuais, que não eliminariam a doença, mas restringiriam o seu desenvolvimento. Contudo, o desconhecimento do agente etiológico e a lentidão provocada pelos trâmites burocráticos do serviço público fizeram com que as medidas profiláticas estabelecidas pela comissão de médicos não fossem prontamente executadas. Somente após um mês de instalação da doença na Bahia, houve implementação de medidas de combate e prevenção à gripe espanhola, determinadas pela Diretoria Geral de Saúde Pública, através de métodos de lavagens e desinfecções de lugares públicos e de grande circulação de pessoas 2.

A gripe espanhola gerou muitos prejuízos para a cidade de Salvador, com paralisação de fábricas, diminuição da circulação de pessoas e mercadorias, queda na produção de alimentos e no comércio e perda de mão-de-obra em diversos setores econômicos, já que grande parte da população baiana foi afetada pela doença. A moléstia também trouxe à tona imensas discrepâncias da sociedade baiana, assim como as deficiências das políticas de saúde públicas locais e do sistema médico 4.

O perfil das pessoas acometidas pela gripe espanhola estava diretamente associado às condições sócio-econômicas precárias. Os distritos que mais registraram óbitos na cidade de Salvador foram Santo Antônio Além do Carmo, São Pedro e Nazaré, os quais abrigavam segmentos sociais mais empobrecidos, operários fabris e eram áreas próximas ao centro administrativo e comercial da cidade, com grande circulação de pessoas 2. Contudo, o maior número de óbitos aconteceu em indivíduos integrantes da classe média, com 41 sepultamentos, obedecendo uma média diária de 2,2 enterros por dia. Segundo o Serviço de Estatística Demográfico-Sanitária, entre 27 de setembro e 31 de outubro de 1918, ocorreram 216 óbitos por gripe ou influenza 2.

No final de novembro de 1918, houve decréscimos significativos nas pessoas acometidas pela doença e nos óbitos, caracterizando o fim do estado epidêmico da gripe espanhola. Findo o período de flagelo da doença, pode-se perceber que a epidemia de gripe espanhola na Bahia foi mais amena do que em outros estados, como o Rio de Janeiro, embora tenha instalado uma crise social, econômica e de saúde generalizada no Estado5.

Referências utilizadas:

  1. BRASIL. Ipeadata. http://www.ipeadata.gov.br/. Acesso em 24/02/2014.
  2. SOUZA, CMC. A gripe espanhola em Salvador, 1918: cidade de becos e cortiços. História, Ciências, Saúde — Manguinhos, Rio de Janeiro, v. 12, n. 1, p. 71-99, jan.-abr. 2005.
  3. SOUZA CMC. A epidemia de gripe espanhola: um desafio á medicina baiana. História, Ciências, Saúde — Manguinhos, Rio de Janeiro, v. 15, n. 4, p. 945-972, out.-dez. 2008.
  4. SOUZA CMC. A epidemia de gripe espanhola: saúde, política e medicina em tempos de epidemia. Rio de Janeiro, Editora Fiocruz; Salvador: Edufba. 372 p. il. 2009
  5. SOUZA CMC. A gripe espanhola na Bahia de Todos os Santos: entre os ritos da ciência e os da fé. Dynamis, 30:41-63, 2010.
  6. ROONEY, A. A História da medicina- das primeiras curas aos milagres da medicina moderna. 2013. São Paulo. M.Books do Brasil Editora Ltda.
Como citar esta página: – Brazil TK, Borges YCL, Guerreiro H.. Gripe Espanhola. Museu Interativo da Saúde na Bahia. Disponivel em: http://www.misba.org.br/epidemia/epidemias-em-salvador-bahia/gripe-espanhola/. Acesso em: 18/08/2017 22:36:28.